Falso Moralismo e Hipocrisia Funcional: A Direita Brasileira Entre o Púlpito e o Palanque
- LR Adm
- 13 de ago.
- 4 min de leitura

Nos últimos anos, a política brasileira tem se tornado um palco onde personagens cuidadosamente
construídos vendem uma imagem de virtude absoluta, sustentada por rótulos como “cristão, patriota, pai/mãe e trabalhador de bem”. Essa identidade, repetida em redes sociais e palanques, não é apenas uma forma de se apresentar, mas um verdadeiro produto político: uma vitrine de valores que, na prática, se mostram inconsistentes e, muitas vezes, opostos ao discurso. O episódio recente do empresário que se apresentava exatamente dessa forma, mas assassinou um gari após uma discussão de trânsito com o seu (pasmem) BYD e escancara ainda mais essa contradição. A fé, que deveria servir de guia moral, é usada como escudo retórico. O patriotismo, que deveria significar compromisso com a nação, se transforma em bandeira seletiva, apoia cegamente líderes estrangeiros, como Trump, mesmo quando eles adotam medidas contra o Brasil, como tarifas sobre produtos brasileiros. Aimagem de pai e marido, que sugere cuidado e empatia, se dissolve diante de um ato que tira de outra criança o direito de crescer com o próprio pai com frieza e falta de empatia com o próximo. E seu BYD, Demonizam a China como “ameaça comunista”, mas consomem tranquilamente produtos e serviços chineses: Compram carros BYD. Usam celulares Xiaomi, Redes 5G e TVs TCL. Hipocrisia explícita: se a China é “o inimigo”, por que financiar sua economia com consumo direto?
A apropriação da religião como ferramenta política é um elemento central dessa narrativa. No Brasil, especialmente em setores conservadores, o Cristianismo é frequentemente invocado como justificativa para pautas morais que interferem na vida de terceiros. No entanto, quando crimes são cometidos por aliados políticos ou ideológicos, a retórica da fé dá lugar a desculpas e relativizações. O que deveria ser princípio inegociável se torna variável política. A espiritualidade, em vez de orientar condutas, vira instrumento de legitimação de poder, projetando virtude para fora e blindando incoerências por dentro.
O patriotismo, nesse contexto, também sofre um esvaziamento de sentido. Muitos dos que se apresentam como nacionalistas adotam um nacionalismo condicional, que se aplica apenas quando conveniente para o grupo político. Demonizam a China como ameaça comunista e acusam o Brasil de “vender-se” ao firmar acordos comerciais, enquanto aceitam de bom grado a submissão aos Estados Unidos (mesmo quando isso significa aceitar tarifas prejudiciais), interferência em assuntos internos e alinhamento automático a agendas estrangeiras. Essa postura ignora o fato de que, desde 2009, a China é o maior parceiro comercial do Brasil, garantindo bilhões em exportações de commodities e fortalecendo setores inteiros da nossa economia. Comércio não é submissão; é troca estratégica. Fechar portas por ideologia e concentrar relações em um único parceiro é abrir mão de soberania. Diversificar mercados, inclusive fortalecendo alianças como as do BRICS, é a verdadeira forma de garantir independência econômica e política.
A incoerência não para por aí. Quando o assunto é direitos humanos, a hipocrisia funcional salta aos olhos. Os mesmos que pedem punição severa e defendem “lei e ordem” contra adversários políticos mudam o discurso quando aliados são responsabilizados. O caso mais emblemático é o das manifestações de 8 de janeiro: enquanto nos Estados Unidos líderes de direita defendem décadas de prisão para vândalos que atacam prédios públicos, no Brasil esses mesmos líderes pedem anistia para a base bolsonarista que depredou a sede dos Três Poderes. Quando o crime é cometido por adversários, é “justiça”; quando por aliados, é “perseguição política e violação grave dos direitos humanos”.
Essa lógica também se repete no debate sobre liberdade de expressão e regulação das redes sociais. A direita conservadora frequentemente rejeita qualquer medida de combate a crimes digitais, alegando que se trata de censura. A retórica é de que a internet deve ser um espaço livre, mas o efeito prático dessa posição é manter impunes as redes que propagam ódio, desinformação e até crimes como a exploração sexual infantil. O caso recente em que o influenciador Felca expôs esquemas desse tipo é ilustrativo: parlamentares que votaram contra projetos de combate posaram depois como “heróis” por trazer o assunto à tona, esquecendo que o vespeiro só existe porque eles mesmos se recusam a enfrentá-lo legislativamente. É a velha fórmula: criar o problema, manter o problema e depois se apresentar como salvador.
O mais grave é que essa hipocrisia não é fruto de descuido ou contradições inocentes. Ela é um método. Trata-se de mobilizar a base por meio da raiva e do medo, aplicar os princípios de forma seletiva para proteger aliados e atacar adversários, manipular a narrativa econômica para que parcerias com uns sejam vistas como traição e submissão a outros como estratégia, e usar moralismo religioso como ferramenta de marketing político. É um jogo de aparência sobre substância, de discurso sobre prática, de identidade fabricada sobre valores reais.
Enquanto essa lógica prevalecer, o Brasil continuará refém de um falso moralismo que prega liberdade, mas entrega submissão; que prega moralidade, mas entrega violência; que prega patriotismo, mas entrega dependência. A solução para isso não é trocar um rótulo por outro, mas reconstruir o debate público com base em coerência, dados e interesse nacional real e não na encenação de virtude para consumo de rede social. Até lá, a política seguirá sendo o teatro onde personagens de fachada dominam o palco, e o país, o público enganado que paga o ingresso.
No fim das contas, o falso moralismo da direita conservadora brasileira é como aquele adesivo de “Deus é fiel” colado no para-choque de quem fura sinal vermelho com o seu BYD e xinga o gari na esquina e depois vai treinar com a maior frieza. É um patriotismo que só funciona com bandeira importada, uma moralidade que se dobra diante da conveniência, e uma fé que serve mais para enquadrar adversários do que para guiar a própria vida. É a hipocrisia funcional disfarçada de virtude, vendida no atacado e consumida no varejo por quem confunde rótulo com caráter. E enquanto essa encenação seguir ditando as regras, não adianta gritar “liberdade” ou “pátria amada”, porque, na prática, estarão defendendo apenas a liberdade de mentir e a pátria de poucos.
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